quinta-feira, 24 de setembro de 2009

"INTERNATIONAL CONGRESS" Seminário de Nossa Senhora da Conceição - Auditório Vita



O registo vídeo dá conta dos cantares polifónicos. Gostei de ouvir estas vozes assim abertas na minha ausência. Creio que as senti no Índico, no estreito de Malaca.






É assim mesmo, toca a pôr o povo a dançar, toca a partilhar os sons e os movimentos, os corpos precisam destas aprendizagens; é bonito ver como se entregam à dança aqueles que nunca a experimentaram nestes moldes: regra de ouro: fazer o que o corpo pede, saber como é que o corpo reage, para depois poder seguir os percursos da aprendizagem. Ficamos familiares quando acertamos com os passos uns dos outros.







Pese embora a idade, é bonito ver estes corpos assim vestidos a coreografarem a vida, as relações simbólicas entre os elementos da comunidade, as relações de desejo entre as pessoas.























Sinto orgulho nesta emulação cultural: fazermos de outros para sermos mais nós, para transportarmos mais sentido nos gestos de faz-de-conta. Sinto orgulho nesta gente, sou suspeito, bem sei, mas está aqui muita dedicação, muito trabalho, muita atenção a pormenores de sermos como somos.































Foi pena que os outros fossem poucos? Foi. Mas a pena, sabemo-lo agora, também ficou do outro lado, quem organizou ficou a lamentar a frequência dos seus pares. Folclore é folclore e muito folclore cansa, pois é, é como toda a literatura e toda a cultura, mas dosear para uns não é dosear para todos e nem todos sabem o valor da dose que querem tomar. A disponibilidade de quem se mostra fica como referência para o futuro? Pode ser que sim. Mas também é preciso tirar a lição das situações de fome no futuro: dar pouco também faz bem.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Extracto do DVD “ Queremos dar-Te graças”


Se já sentimos o abraço de um amigo
Então sabemos bem a falta que nos faz,
Por isso é que lhe damos o sentido
De ser princípio fundador da nossa paz!


Este cantar polifónico inspira-se directamente na polifonia rural arcaica dos cantares de trabalho, como «Viva o nosso patrão de hoje» ou «Não corteis a oliveira», o primeiro recolhido em Cervães, na Casa da D. Marquinhas, mãe da Amélia, e o segundo recolhido em Marrancos, numa linhada em casa do senhor Abílio Araújo, interpretado por umas mulheres de Goães que espadelavam o linho. A letra e a melodia de base são de minha autoria e pedi ao António da Costa Gomes que o harmonizasse no sistema de sobreposição de vozes, a terminar no sobreguincho ou Fim. A nossa respiração dita as pausas e aqueles dois momentos em que ocorre um acorde dissonante dão-lhe uma dinâmica de ansiedade harmónica que é a sua natural ambição, após aquele melisma final na sílaba «paz». Que a prática futura o aperfeiçoe, é o que desejo.


José Machado

sexta-feira, 31 de julho de 2009

No Festival Internacional de Folclore de Braga.



A nossa primeira dança, «Caninha verde "Os sinos da sé"», foi construída a partir da melodia com o mesmo nome interpretada pelo senhor Catarino, de Aldreu, um homem, entretanto falecido, que tocava com a o grupo de Alcreu e com uma estúrdia constituída por vários músicos, incluindo o senhor Cardoso que toca concertina no grupo de Parada de Gatim. Conheci este conjunto de músicos na altura da celebração de Centenário da Coroação de Nossa Senhora do Sameiro, em 2004, porque eles responderam ao apelo de reunião dos grupos folclóricos para o evento «Vamos bailar à Senhora», evento de cuja concepção e organização o senhor Cónego Eduardo Mello me encarregou. Esta estúrdia de Aldreu, onde se incluía o senhor José Catarino, foi para mim um caso sério de inspiração, de apoio e de garantia de boa execução. Na altura estive para tirar partido desta cana verde cuja linha melódica acho notável, pela variedade de movimentos ou partes que a formam, mas não lhe soube apor qualquer letra pelo que ficou sem ser utilizada. Mas foi futuro e desafio: acabei por criar uma linha melódica para o canto, sem interferir na original e esta ficou como estribilho instrumental. A coreografia foi pensada a partir das marcas da cana verde: serrar e figuras, sendo que nas figura o «S» é de inclusão obrigatória, a definir o sentido de celebração contratual que é o sentido das canas verdes.


Esta segunda coreografia «Vir feirar» não está completa, mas está filmada o suficiente para espevitar a curiosidade. A melodia é «retirada» da composição para coro a 4 vozes que o compositor bracarense Manuel Faria criou e que se intitula precisamente «vir feirar». O compositor António da Costa Gomes apresentou, aqui há uns anos, esta melodia interpretada pelo coro de Dume seguida de uma coreografia pelo grupo folclórico da mesma terra. Na altura fiquei a pensar que a própria melodia era dançável, pois se trata de um vira. Não conheço as condições em que o Padre Manuel Faria terá recolhido esta melodia, mas a sua harmonização revela bem duas coisas: a sua percepção clara da função acompanhante da concertina durante a execução da estrofe (as vozes repetem tiroliroliro durante a execução da estrofe «empresta-me o teu chapéu») e a reiteração do coro «vir feirar». Estes dois movimentos do canto respondem a dois movimentos coreográficos, a dois passos ou estilos de marcação, um deles identificando o vira e outro induzindo um passo mais de passeio, semelhante a um passo galego ou também presente nos grupos de Guimarães, que é executado a par e com uma leve elevação do pé. O ir e vir da feira, a circulação de pessoas umas pelas outras e umas com as outras, a definição de espaços dentro da fila e do quadrado, ditaram a coreografia.



Estas imagens referem-se à coreografia da «lavrada», um vira criado numa linha melódica muito simnples para coroar a interpretação polifónica de um aboio ou canto de incentivo ao trabalho com os bois: «lavra, boi, lavra, no chão da Cortelha; repica, repica, na vaca vermelha. Ei, boi a lavrar, ei, boi!». A coralidade desta cantar, retomado do Cancioneiro Minhoto de Gonçalo Sampaio, foi criada pelo músico António da Costa Gomes, com um arranjo que consagra o cantar a «desquadro», circulando de uma tonalidade menor para outra maior, com estribilho instrumental dançável.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

No palco ( Tardes de Domingo - 2009)


Foi no dia 19 de Julho, pelas 16.30 horas, no palco da Avenida Central. O calor apertava, o sol batia de frente e foi tomando o palco por inteiro. Começámos com o «Malhão de entrada», uma coreografia com entrada a par, depois volteio de homens e mulheres à vez ao centro da roda, depois em fila e novamente a par, enquanto se ouve o estribilho instrumental e as «sextilhas», as tais quadras que têm uma finda de dois versos a rematar a ideia.


Na tocata apresentamos o clarinete em dó, as concertinas (dó, fá e sol), as braguesas, os violões, os cavaquinhos, o reque-reque, o bombo, os ferrinhos, as tréculas e as castanholas. O coro tem os sopranos e os altos, os tenores e os baixos. Gostamos da polifonia e introduzimo-la sempre que podemos, mas também cumprimos o carácter solista das composições, claro está.

Tardes de Domingo - 2009