As diferenças entre a nossa forma de comunicação folclórica e a dos povos que nos visitaram são óbvias e por isso mesmo merece a pena descrevê-las e considerá-las: enquanto nós mantemos o formato de grupo etnograficamente situado e circunscrito, eles inspiram-se na etnografia para desenvolverem conteúdos de animação folclórica; enquanto nós mantemos o grupo virado para si próprio, eles viram o grupo continuamente para o público, enquanto nós mantemos uma identidade local dos conteúdos, eles investem numa identidade nacional. Evito juízos de valor, porque ambas as fórmulas têm virtualidades, mas não receio entrar por eles se considerarmos que o nosso estilo não evoluiu desde que o começámos a praticar. É claro que eu não desdenharia ver um grupo irlandês, para usar o caso mais sintomático de mudança de paradigma que esteve no festival, que trouxesse as danças, os trajes e as cantigas da sua «aldeia», mais os objectos de lavoura ou de artesanato ou sinais de qualquer outra actividade «manual» que fossem símbolos locais do seu percurso histórico, mas verifico que essa possibilidade é cada vez mais remota de acontecer num festival dito internacional. Ora é precisamente aqui, nesta comparação em termos absolutos, que pode estar uma polémica interessante em que eu espero que os leitores deste blogue entrem de boa fé.
José Machado
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