terça-feira, 14 de abril de 2015

No quinto centenário de Sá de Miranda...

No quinto centenário de Sá de Miranda...
Por João Alves Dias
(Publicado no Jornal A Voz Portucalense, de 4 de Janeiro de 2015)

O doutor Aurélio Oliveira, catedrático jubilado da U.P., fez o desafio. O Grupo “Sinos da Sé” de Braga aceitou-o. E nasceu o CD Cantar Sá de Miranda, gravado na escola Sá de Miranda e recentemente editado.
Mas quem é este português de quinhentos que, ainda hoje, merece ser cantado? Um “guarda-cabras”, como se intitula na carta que escreveu ao Rei D. João III, que ousa atacar a frivolidade da Corte - “Homem dum só parecer/dum só rosto e d' ua fé,/d'antes quebrar que volver/outra cousa pode ser,/ mas de corte homem não é”. Um poeta que critica a macrocefalia de Lisboa - “Não me temo de Castela,/ mas temo-me de Lisboa,/ que o Reino nos despovoa”; denuncia os Senhores - “fortes amos/querem que os adoremos”,  a má distribuição da riqueza - “um possui de serra em serra/outro nada ou dous tojais”,  os funcionários prepotentes - “Executores da lei, /havei vergonha algum dia”, a ostentação de algum clero - “quanto padre que passea/em fim, ventre e bolsa cheia”.
António Ferreira, seu contemporâneo, diz: “Novo mundo, bom Sá, nos foste abrindo/com a tua vida e com teu doce canto”. Almeida Garrett afirmou: “Sá de Miranda, verdadeiro pai da nossa poesia, um dos maiores homens do século, foi o poeta da razão e da virtude”. José Machado, no libreto do citado CD, esclarece: “Sá de Miranda foi o tipo de homem da cultura que transitou da vida palaciana para a residência rural. Este tipo de português erudito e sujeito interveniente político que se retira dos negócios e da “coisa pública” para se dedicar à produção literária, mas sempre atento à orientação geral do reino e das gentes, é protótipo do intelectual integrador, reformista e renovador da vida cultural do seu povo.
Sá de Miranda nasceu em Coimbra em 1481. De ascendência fidalga, estudou em Santa Cruz e frequentou a Universidade onde alcançou o título de doutor em Direito. A fidalguia e a cultura abriram-lhe as portas da Corte. Por curiosidade intelectual, foi viver para Itália, durante 5 anos, onde conviveu com os maiores vultos do renascimento da época. Regressado a Portugal, foi de novo bem recebido na Corte. Mas, passados quatro anos, inesperadamente, deixou tudo e recolheu-se às terras de “Entre -Homem-e-Cávado”, onde casou e veio a morrer, em 1558, na sua quinta da Tapada, em Amares. Como diz o subtítulo do CD, Ainda não é tarde para evocar quem fez da escrita uma contínua intervenção social e literária e, como um profeta, assumiu a missão de denunciar a soberba dos poderosos, a corrupção dos políticos, os vícios da sociedade, a ostentação e a degradação dos costumes. Um exemplo para os dias de hoje...
Vale a pena conhecê-lo nas suas trovas à maneira antiga, poesias bucólicas, sonetos, canções, elegias, cartas, comédias.
(VP, 4/1/2015)


11 de abril de 2015 - Auditório da Fnac - Braga - "Serrana onde jouvestes"

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