segunda-feira, 5 de julho de 2010

Encontro de ex-combatentes no RI 15/Tomar

(desta vez vou enveredar por uma crónica pessoal)

Numa reacção instantânea, quando ouço falar dos ex-combatentes lembro-me sempre dum verso do Fernando Pessoa que dizia “…quanto do teu sal, são lágrimas de Portugal”.





Um dia, ainda pequeno de perceber, escrevi um “poema” ao qual chamei “A senhora Alice” que tinha muitos filhos e um dos quais tinha ido para a guerra:

“A senhora Alice
fazia meias e cabos de cebolas
e tinha na eira
os feijões a secar.
A senhora Alice era do tanque
onde lavava as
lágrimas do filho no Ultramar.
A senhora Alice
era do senhor Filipe.”

Nesta altura as mulheres pertenciam aos seus homens, nesta altura o tanque de lavar a roupa era o lugar das notícias, nesta altura ainda não havia máquinas de lavar roupa, nesta altura ainda não havia hipermercados.
Nesta altura sabia que o ultramar não era ali nem perto, via na televisão a preto e branco soldados a mandar beijos e saudades, via à minha frente o garnizé a quem puseram o nome de “salazar” e não percebia porque é que no meio de tantas galinhas e galos só aquele mais pequenino é que tinha nome. Via um senhor de fato a falar também a preto e branco e a dizer que Portugal ia do Minho a Timor.



Nasci em 1965, mais tarde casei-me e minha mulher revelou-me que era de Moçambique, tinha vindo em 1966.
Para esta viagem acordei mal. Tinha receio que me falassem de Lourenço Marques, do rio Niassa e do rio Limpopo, da Beira e de Porto Amélia, da Praia e dos tiros rasantes e das emboscadas nocturnas e eu disto nada sabia.
Cumpri o serviço militar na Marinha, como engenheiro de Informática que já era e não aprendi nada de tácticas e estratégias de guerra, mas aprendi a ser camarada, a ter um sentimento de pertença, a ter uma Pátria.





Na missa que cantámos em tons folclorizados vieram-me à memória as lágrimas e arregalei os olhos para as não deixar sair.
Seguimos para o almoço e os discursos de antes do almoço, e foi então que a bateria da máquina fotográfica acabou, como se estivesse a protestar por eu as ter contido.





São estas as "minhas memórias do ultramar" e com elas dancei e cantei e senti-me Português: moçambicano, bracarense e transmontano.








António Machado, 4 de Julho de 2010

1 comentário:

  1. Meu caro, textos destes dignificam ainda mais este blogue, até porque são percepções culturais muito significativas da tua geração, entram no díálogo da tradição com o tempo presente e fazem parte da corrente das emoções e dos afectos intrínsecos às práticas literárias, musicais, religiosas, cívicas. Continua.

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